Machismo que mata homens

Artigo de Ana Lu Tanaka para o portal Jornal 140.

O que enxergamos sobre o assunto é só a ponta do iceberg. Entenda também o impacto disso no âmbito profissional.

“Desculpe-me filha, tenho dificuldade de expressar meus sentimentos”. Essa foi uma frase que ouvi recentemente do meu pai, senhor de 64 anos, descendente de japonês. Por mais que o tema sobre o machismo não fosse novo para mim, o desabafo dele, carregado de emoção, mexeu comigo. Tão importante quanto falar sobre o impacto do machismo nas mulheres é abordar o impacto causado nos próprios homens.

Desde cedo, os meninos aprendem o que é ser homem e como se comportar como homem. Comportamentos impostos por meio da cultura, estilo de criação dos filhos e sistema educacional que, pelas noções intuitivas de masculinidade, são extremamente tóxicos e danosos. Aprendem, por exemplo, a reprimir emoções associadas à fraqueza ou ao feminino. Não podem demonstrar medo, dores e tristezas, mas podem demonstrar fúria e raiva. Afinal, homem não chora, certo? Não se emociona e precisa estar sempre no controle de tudo. Dois documentários que retratam bem o que estou dizendo são o The Mask You Live In, disponível no Netflix, e O Silêncio dos Homens, no Youtube. Inclusive os recomendo para você que está lendo esse artigo.

No caso do meu pai, voltando na linha do tempo, percebi a dificuldade dele de expressar principalmente tristeza e insegurança. Era mais fácil fazer cara de bravo a tal ponto de eu achar que ele estava com raiva da situação e não triste. Lembrei também que foram de uns anos para cá que o vi chorar pela primeira vez. Atitude que ainda posso contar nos dedos.

Homens: Vocês lembram quantos anos tinham e qual era o contexto quando ouviram que tinham que ser homens? Ou as frases “Isso é coisa de menina”, “Homem de verdade não faz isso”.

Essa masculinidade não é orgânica ou algo que se desenvolve sozinho, é reativa e construída. É também a rejeição a tudo que é feminino. O que desenvolve essa forma binária de ver o mundo – na qual luta é para meninos, balé é para meninas, engenharia é para homens e enfermagem é para mulheres -, fazendo com que a criança cresça com a necessidade de representar e afirmar a sua hiper masculinidade para validar, de alguma forma, quem é o tempo todo. Seja para ganhar respeito do pai, dos amigos ou validar a si mesmo. Os pais, ao descobrirem o sexo da criança, começam a decorar o quarto, compram roupas, brinquedos etc. Provavelmente dentro do estereótipo da sociedade. Então a noção de que existe criação neutra em termos de expressão de gênero, ou que os pais não são responsáveis por essa influência, é uma impossibilidade psicológica. Dessa forma já aprendem o que é socialmente aceitável ou não.

Reflexo do machismo em números
O primeiro documentário citado traz dados chocantes. A cada dia 3 ou mais meninos cometem suicídio. Sendo essa a terceira causa de morte mais comum. Menos de 50% dos homens e meninos com problemas de saúde mental buscam ajuda. Comparados às meninas, meninos têm 4x mais chances de largarem ou serem expulsos da escola, 2x mais chances de precisarem de reforço escolar ou serem suspensos, 3x mais chances de serem diagnosticados com TDAH. Além disso, 1 a cada 4 meninos diz que sofre bullying na escola e apenas 30% deles notificam a um adulto. Como resultado, aos 12 anos, 34% dos meninos já começaram a beber. A média experimenta drogas aos 13 anos e 1 a cada 4 meninos bebe compulsivamente.

Segundo o psicólogo e educador Terry Kupers, há uma hierarquia de dominância mesmo entre os meninos. Existem os considerados “durões” que estão no topo da hierarquia e os “fracotes”, as “menininhas”, que estão lá embaixo. Esta é a origem do sexismo e da homofobia. No sexismo, as meninas não são tão fortes quanto os meninos. Na homossexualidade, o homem gay se torna a versão mais estigmatizada da fraqueza e do que é feminino.

Homens e mulheres a princípio não são tão diferentes
De acordo com a neurocientista Lise Eliot, por toda a história sempre houve essa crença de que homens e mulheres são criaturas fundamentalmente diferentes. Sexo é um termo biológico, refere-se aos nossos cromossomos, enquanto expressão de gênero é uma construção social. Segundo o psicólogo Michael Thompson, meninos e meninas são muito mais iguais do que são diferentes. Fazendo o mesmo teste psicológico com 50 mil meninas e meninos, os resultados são iguais em 90%.

As pessoas supõe que, por conta do cérebro ser biológico, qualquer diferença dos sexos no cérebro deve ser inerente. Hoje conseguimos comprovar que o cérebro é plástico, ele muda de acordo com os estímulos gerados por nossas experiências. Isso é, reforçamos atitudes e comportamentos que julgamos femininos ou masculinos. O cérebro, por sua vez, faz mais conexões neurais de acordo com os estímulos recebidos.

Impacto do machismo na vida profissional, na liderança e nas organizações

Continue lendo o artigo aqui.

Deixe uma resposta

Open chat